Coleção Arte Brasileira Companhia Editora Nacional

Entrevista Arte Brasileira

Jornal A Tarde de Salvador, Márcia Luz.

14 de julho de 2006-07-13

1.       Como foi o trabalho de pesquisa e organização dessa coleção?

Sem dúvida, minha experiência como pesquisador de artes há quase 30 anos e o olhar de artista plástico foram fundamentais para o resultado alcançado nesta obra. Ser professor de história da arte na universidade, e inclusive professor de futuros ou atuais professores, me ajuda na seleção de temas fundamentais da arte brasileira. Tivemos bastante trabalho para obter os direitos de reprodução de imagem de telas e obras de alguns artistas plásticos do século 20 e sempre que o preço cobrado fosse um impeditivo para a realização do livro, optei por outro artista do mesmo nível e período.

2.       Quais foram os critérios para escolher os monumentos e as obras apresentadas?

Para essa Coleção Arte Brasileira, destinada a público leigo em artes, e a estudantes, eu comecei pelo critério de publicar livros a preços tão acessíveis quanto a linguagem, para o que tive todo o apoio da Companhia Editora Nacional. Depois, fiz questão de que todas as obras de arte analisadas e mencionadas estivessem em locais públicos (e não em coleções particulares), para que qualquer pessoa que se interessasse pudesse vê-las. Obras em museus ou logradouros públicos já passaram por um crivo do tempo e sua qualidade artística normalmente já está consolidada.

O terceiro mas não menos importante critério foi o de criar um panorama da arte brasileira buscando o mais significativo em cada período, segundo a divisão temática que propus nos livros, e, acima de tudo, que abrangesse todo o território nacional, saindo dos eixos geográficos tradicionais em arte.

3.       Quanto tempo levou esse trabalho?

Depois de definido o formato final, voltado a leigos e estudantes do último ano do colegial e primeiro do superior, foram dois anos de trabalho – mas a  idéia inicial existe há cinco anos. A versão que acabo de publicar foi adaptada a partir da de um livro de grande formato com 100 análises de obras dos diversos períodos da arte brasileira. Em estudos com a Editora Nacional (editora  Célia de Assis), chegamos a essa forma: cinco livros e mais um guia, quase um manual de utilização  – o Para entender a arte brasileira.

4. O que lhe deu mais prazer no processo de elaboração do trabalho?

A escolha das obras, sem dúvida, e depois, o trabalho realizado tal como  planejado. Portanto o planejamento em si, a adaptação dos textos e por fim a arte visual e gráfica conjugada a um texto claro e enxuto. Outro prazer é o de saber que não há trabalho similar em arte brasileira para este público, ou seja, o valor da divulgação da nossa arte.

Ir aos locais e fazer as fotografias – muitas delas são minhas, cedidas à publicação - sabendo que ângulo buscar para estar em sintonia com o texto e com a diagramação fez com que o processo fosse dinâmico, e os livros tivessem a vibração desejada como deve ser para os jovens. O trabalho acadêmico, que faço na universidade, é sempre mais cerebral ; nesta coleção, pude me  dar ao prazer de ser mais emocional e ver as obras através de minha experiência de aulas em museus e cidades históricas.

5.Você retratou vários temas, obras e períodos. O que você destaca como mudanças significativas do século 16 até a contemporaneidade?

A maior mudança está nos sítios geográficos nos quais foram implantadas as cidades. O descaso para com a natureza, em outras palavras, a comparação entre as paisagens naturais e as construídas pelo homem, chega a chocar. O exemplo mais antigo do livro é a falta de sintonia entre o Forte dos Reis Magos e a atual cidade de Natal, construída para um turismo exploratório. Há também exemplos de representação dos índios tupinambás na França, obras praticamente desconhecidas no Brasil, que garimpei em minhas andanças. A insistência da natureza em preservar a paisagem de Olinda, tão descuidada pelo homem. A beleza tão retratada e pintada da Baía da Guanabara e ao mesmo tempo tão violada. Situo a questão em especial no Arte Colonial – Barroco e Rococó, com um capítulo sobre o patrimônio da humanidade no Brasil, e no Arte Moderna e Contemporânea , com capitulo sobre as cidades e a natureza. Creio que esta atemporalidade é difícil de ser expressa para os não especialistas, mas podemos ajudar seu olhar a ser dirigido para o cotidiano.

6. Qual dos períodos mais agrada ao seu olhar, como pesquisador e professor?

Como pesquisador o período colonial tem me ocupado mais tempo. Porém, como artista plástico, as artes moderna e contemporânea têm um significado especial de vivência, experimentação e ensino para os artistas universitários. Tenho de estar atuante tanto dentro de uma Bienal Internacional de São Paulo quanto da Sé de Salvador. Os olhares se completam nos períodos diversos tanto assim que os livros possuem temas transversais, ou seja, iniciam com e descrevem todo um período mas também remete aos outros, além daquele tempo. O melhor exemplo é o Arte Indígena -- que vai da arte rupestre até a contemporaneidade.

7. O que falta, na sua opinião, para que todo esse conjunto seja melhor preservado?

Falta educação, educação para o patrimônios, e oportunidade para o conhecimento. Não se ama o desconhecido. Não se preserva o que não se dá valor. Há um conjunto cultural a ser entendido como um todo desde o urbanismo, a arquitetura, o modo de vida e aquilo que cada período nos legou como cultura nas diversas expressões artísticas que vão desde o popular até a sofisticação do pensamento.

A destruição do passado sem a menor cerimônia é alarmante. A culpa é de toda sociedade que por vezes não tem parâmetros entre o passado e o presente, nem a mínima visão do futuro. Quanto ao patrimônio da humanidade cada qual tem suas dificuldades: Ouro Preto com a invasão das construções precárias sobre os morros, Salvador ainda por completar os restauros, São Luís com a grande quantidade de edifícios preservados mas de difícil acesso para utilização…