Festas de Fé. Festivals of Faith

Autores Percival Tirapeli (pesquisa e texto); Rosa Gauditano (fotografia). Projeto gráfico Dora Levy. Editora Metalivros

Formato 29,5 x 31,0 cm/ 228 páginas e mais de 200 fotografias/ port. e inglês

O desfile da fé Brasileira. Livro faz radiografia das festas religiosas nacionais

Autora: Renata Saraiva. Revista FAPESP, Edição 98, abr. 2004

https://revistapesquisa.fapesp.br/2004/04/01/o-desfile-da-fe-brasileira/

Guardam-se as plumas e os paetês usados na avenida e entra-se no período da Quaresma, criada para a penitência, o silêncio e o abandono dos prazeres mundanos. Não é preciso chegar a Semana Santa para se descobrir que as festas religiosas brasileiras são tão ou mais exuberantes quanto o mais profano dos carnavais. Lançado recentemente pela editora Metalivros, o livro Festas de fé (230 páginas, R$ 120) faz as vezes da passarela, reunindo imagens das mais distantes manifestações religiosas nacionais. Da devoção ao Padre Cícero, no Ceará, à festa da Nossa Senhora de Achiropita, dos descendentes de calabreses em São Paulo, tudo são cores, fantasias e alegorias: festa de Iemanjá, lapinha, bumba-meu-boi, Corpus Christi, festa junina, ritual de passagem dos índios.

Às belíssimas fotografias, feitas no decorrer de vinte anos por Rosa Gauditano, soma-se o texto de um profundo conhecedor da arte e da cultura brasileiras, Percival Tirapeli, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), que se iniciou no assunto em 1968. A edição, bilíngue, é amarrada pelo projeto gráfico de Dora Levy, que enfatiza o didatismo pretendido pelo autor. ”A linguagem é propositalmente simples e acessível, já que está voltada também para estrangeiros. Além disso, o livro foi distribuído em bibliotecas públicas em todo o território nacional”, diz Tirapeli.

Seu texto foi desenvolvido no decorrer dos últimos quatro anos, quando, além de já ter tido contato com as fotos de Rosa Gauditano, o pesquisador saiu a campo com a fotógrafa, clicando festas e manifestações religiosas como a Festa do Divino, em São Luís do Paraitinga, São Paulo. “Embora Rosa já tivesse um grande acervo quando a Metalivros decidiu realizar o livro, ela voltou a alguns locais para registrar as transformações ocorridas nas manifestações”, conta o pesquisador. “Em São Luís do Paraitinga, por exemplo, ela tinha feito as primeiras fotos em 1984.”

Além da preocupação com a atualidade das imagens, Festas de fé é marcado por uma divisão das festas de acordo com a origem cultural de cada uma delas. Entre as ibéricas, baseadas no cristianismo popular, estão as celebrações de Natal (folias de reis, presépios, reisados, pastoris), a Semana Santa, as procissões (Corpus Christi e as que se dão sobre as águas), a Festa do Divino, as festas juninas, romarias, santuários e outras. Já entre as manifestações afro-brasileiras, estão congos, congadas, maracatus, lavagem do Bonfim e festa de Iemanjá.

O legado indígena está representado pelos rituais de passagem dos Wai’a e por manifestações que mostram a permanência da aculturação feita pelos portugueses. É o caso da Dança da Santa Cruz, que remete a um hábito dos primórdios da Colônia, quando os jesuítas plantavam uma cruz no centro das aldeias indígenas, em redor da qual se deveria dançar. Para que a contribuição europeia não se resumisse à presença dos portugueses e espanhóis – não se pode esquecer que o período da união das Coroas esteve bastante presente na colonização brasileira -, Festas de fé ainda apresenta algumas festas religiosas italianas, como a famosa Achiropita, além das homenagens a Nossa Senhora de Casaluce, a mais antiga festa religiosa italiana em São Paulo, datada de 1900.

“A grande curiosidade das festas religiosas no Brasil é que elas seguem o calendário religioso o branco da neve ao Natal”, explica Tirapeli. Se a incongruência da neve está presente em uma festa extremamente urbana como o Natal, outras características naturais se sobrepõem às origens europeias quando se fala em ritos e festividades praticadas no interior do país, principalmente nas áreas rurais. São os casos das procissões fluviais e marítimas, que se realizam em quase todos os estados, e respeitam europeu, de um lado, e os ciclos naturais do plantio e da colheita, de outro. Acontece que, como as estações são diferentes nos trópicos e na Europa, ocorrem discrepâncias, como o hábito de associar a vocação do país, voltado para o oceano e cortados por grandes rios. Exemplos são a Nossa Senhora dos Navegantes, no Rio Grande do Sul, e o Círio de Nazaré, do Pará, que passou a se estender para várias cidades ribeirinhas desde 1992. Também Iemanjá, deusa das águas, facilitou a adaptação dos ritos de origem africana por aqui.

Este texto foi originalmente publicado por http://revistapesquisa.fapesp.br/Pesquisa FAPESP de acordo com a https://creativecommons.org/licenses/by-nd/4.0