IGREJAS PAULISTAS: BARROCO E ROCOCÓ

Percival Tirapeli. Fotos Manoel Nunes. Editoras Imprensa Oficial do Estado e Editora UNESP. Brochura, 28 x 20 cm, 372 páginas, 2003. Design gráfico Azul Publicidade. Prêmio Sérgio Milliet pela Associação Brasileira de Críticos de Artes, melhor pesquisa em artes de 2003.

 

Relendo Mário de Andrade e outros pioneiros da conservação de nossos bens tombados desde os primeiros momentos, em 1937, pelos órgãos governamentais, dei-me conta de que tanto o mapeamento quanto os estudos específicos da arquitetura paulista haviam quase se esgotado. Na missão a que me propus, prontamente respaldada pela Editora UNESP e Imprensa Oficial do Estado, pulsava forte a possibilidade de se realizar uma obra que resgatasse a memória da arte sacra colonial cujos testemunhos se encontrassem em solo paulista. Apresentar ao público as igrejas coloniais paulistas é sem dúvida saldar uma dívida com o patrimônio cultural da arte sacra; inventariar boa parte das igrejas e capelas foi ideia surgida naturalmente, após a realização do livro Barroco Memória Viva - Arte Sacra Colonial.

É preciso considerar que a importância e o pioneirismo da arquitetura das casas bandeiristas paulistas estão já asseguradas por estudos bastante exaustivos. A imaginária seiscentista e setecentista obrigatoriamente abre tanto capítulos de livros específicos como exposições de arte brasileira de grande repercussão, aqui e no exterior. A iconografia da primeira cidade brasileira, São Vicente, é fantasiosa - como convinha à época - e, nos mapas do século XVI, já figura com a torre da primeira igreja. O litoral norte paulista ganha notoriedade com a publicação da Viagem de Hans Staden, de 1557; nas areias da praia de Iperoig foi escrito o primeiro poema em solo brasileiro, pelo jesuíta José de Anchieta. As mais antigas imagens sacras de autoria comprovada são de 1560, e estão em Itanhaém, Santos e São Vicente.

E não apenas nas artes visuais: descobertas recentes em organologia apontam para o órgão da igreja do Embu como dos primeiros aportados ao Brasil, e a musicologia confere às partituras coloniais de autoria documentada, encontradas em Mogi das Cruzes, a datação mais antiga do país de músicas compostas no período colonial, 1772.

Tudo isso, aliado ao pioneirismo do paulistano Mário de Andrade norteando e antecipando conceitos que apenas no início do século XXI foram incorporados à legislação brasileira referente aos bens culturais imateriais, levaram-me a iniciar a presente publicação homenageando o pioneiro da conservação dos bens culturais paulistas. Ao sentido de valorização histórica dos monumentos paulistas - não tão “estéticos” ou de fácil fruição como outros exemplares do barroco brasileiro - que foram propostos para tombamento pelo IPHAN por Mário de Andrade, poder-se-ia aliar o sentido “arqueológico” da busca e do resgate da memória nacional. As igrejas e capelas paulistas, marcos nos diversos “caminhos” como o do litoral, do ouro, do sertão, dos vales dos rios Tietê e Paraíba, ao sul e arredores de São Paulo, estavam ainda por ser reunidas - quer histórica, quer imageticamente.

A arte sacra colonial paulista pode ainda hoje ser vista contida nos templos restaurados - ou transformados. Sobreviveram eles ao tempo e constituem-se fontes inestimáveis para a reconstrução da memória artística paulista, até então impregnada pelo estigma de “barroco menos pujante do sertão”.

Esta obra, quer por suas imagens ou pelos textos e apontamentos críticos, tem assim o intuito de iniciar um processo de resgate do conjunto paulista de igrejas, capelas e suas ornamentações com traços dos estilos barroco e rococó - como os retábulos e pinturas - e que ainda hoje se mostram autênticos testemunhos de nossa arte colonial e da formação da brasilidade. Revisitados, passam a fazer parte da história da arte brasileira, ao mesmo tempo em que estimulam novas pesquisas e pesquisadores.

 

Percival Tirapeli, autor.