Fundação de São Paulo: Paulicéia Desvairada – dos jesuítas aos Andrades. Colagem s/tela e acrílica, 1,20 x 6 m, 2015

Esta colagem foi possibilitada pelo uso de provas gráficas de cores do livro São Paulo Artes e Etnias. As páginas escolhidas elegem a ação dos padres jesuítas e os desbravamentos dos bandeirantes. Monumentos de índios dos anos 1920 adornam as praças públicas erigidos em geral por artistas italianos. A cidade colonial é substituída pela imperial e acrescida pelos edifícios ecléticos na virada do século 19 para o 20 até transformar-se na Paulicéia Desvairada cantada pelo modernistas Andrades – Mário e Oswald. As bienais inflam a internacionalização da arte brasileira, a criação de museus em meio a capital acinzentada que verticaliza-se. Bardi atrela-se ao MASP e Ciccillo Matarazzo ao MAC. E a megalópole

Condor consumido pela luz da Praça do Sol. Acrílica s/tela, 1,50 x 1 m. 2014.
 

Unir o personagem de ópera (1891) de Carlos Gomes, escultura de Luigi Brizzolara, - parte do conjunto de obras em homenagem ao maestro na Praça Ramos de Azevedo, ao lado do Theatro Municipal - com a vibrante obra Flor Tropical de Franz Weissmann no Memorial da América Latina. Essa é a intenção de Condor, consumido pela luz da Praça do Sol. Condor, personagem da ópera, imola-se para salvar a vida de uma rainha e Brizzolara modela-o e funde-o em bronze com gestos eloquentes, dispondo-o dramaticamente nas escadarias da Fonte dos Desejos. A Flor Tropical abre-se na árida Praça do Sol do Memorial, vermelha, desafiando os raios solares que a fazem brilhar. Condor une-se à Flor por meio de planos vibrantes. Traços nervosos emaranham o personagem que tem a seus pés o punhal que lhe tirara a vida. Seu braço evoca os céus. As pétalas rubras o levitam.
 

Danae no Largo do Arouche. Acrílica s/tela, 1,50 x 1 m. 2014.

Danae é fecundada por fios de ouro oriundos do amor de Zeus. Brecheret estende sua Banhista (1946) no largo do Arouche. Reclinada, como Danae em pinturas de Ticiano, Rembrandt aqui recebe formas geométricas neoplasticistas (Piet Mondrian) que a fecundam. A materialidade do bronze patinado é evidenciada na pintura em primeiro plano; cores flutuam em formas geométricas no espaço compositivo. Fios caem dos céus a suspenderem as pinceladas em azuis, vermelhos e amarelos dourados como a chuva de ouro a fecundar Danae em Klimt. O referencial desta perspectiva do alto para baixo é de uma exposição de Mondrian na capital paulista

Ouro para São Paulo. Acrílica s/tela, 1,50 x 1 m, 2014.

Galileo Emendabili modelou cenas sobre a Revolução de 32 para serem fundidas como portas do Obelisco (1955) no Parque do Ibirapuera. Esta cena refere-se à indústria da fundição enaltecendo o progresso paulista. Os três personagens, que lembram as formas volumosas do Novecento estão envoltos pela obra de Sacilotto, artista concreto que também trabalhou como publicitário no ABC paulista onde desenvolveu suas esculturas em chapas de metal. A fusão das duas obras tão antagônicas – figuração x planos em metal dobrado – cria um mistério de sombras que levam à alquimia da criação artística. O grande prisma em primeiro plano é a pedra filosofal da obra Melancolia do alemão renascentista Dürer.

Formação da raça paulista. Acrílica s/tela, 1,50 x 1 m, 2014.

A grande escultura de Rafael Galvez, Primavera (1939), tem sobre seu belo corpoas formas geométricas do concretista Geraldo de Barros. O entrelaçamento da figuração plena de rotundidade feminina com as formas abstratas, lisas e frias do concretismo cria uma profundidade de campo pictórico na parte inferior em oposição do grande olhar figurativo da mulher que revela-se no alto do pintura. O título desta obra Formação da raça paulista é um referencial da escultura de Galvez, O Brasileiro, também na Pinacoteca com o ideal de Barros que lutou por uma arte concreta paulista. Raça/Brasileiro – Primavera/formação concreta paulista.

Gloria imortal aos fundadores de São Paulo. Acrílica s/tela, 1,50 x 1 m, 2019.

A grande coluna Glória Imortal aos Fundadores de São Paulo, do italiano Amadeu Zani, marca o local da fundação da metrópole. As ações dos jesuítas estão em relevos nas quatro faces, anima no arranque da coluna, os corpos dos indígenas contorcem-se para a ereção da vila. Tibiriçá e Bartira observam os laboriosos indígenas sob a batuta dos inacianos. O símbolo da Companhia aureola o cacique e sua etnia. Raios fulgurantes do sol da sabedoria e justiça pairam acima da massa humana como emblema da salvação. Na circularidade o emblema o trançado indígena sobrepõe-se aos IHS, indicador da salvação.

A Mãe Preta do Rosário. Acrílica s/tela, 1,50 x 1 m, 2019.

O Monumento à Mãe Preta (1955), de Júlio Guerra, no Largo do Paissandu, é o referencial do culto afro à ama negra de leite. A igreja que invoca a Virgem do Rosário domina a praça, local em que nos tempos coloniais as fontes de água serviam como lavanderia para as negras escravas. O altar do Rosário, em mármore branco, contrasta com a ornamentação efusiva com imagens cultuadas no sincretismo religioso afro-católico. A Mãe Preta, aqui, é mais volumosa que a arquitetura eclética. A mãe suporta o peso do templo em seu gesto ao reclinar-se, apertar o peito para alimentar o menino envolto em seu colo. O coroamento do retábulo inspira sua sacralização.

Ora et Labora – Mosteiro de São Bento. Acrílica s/tela, 1,50 x 1 m, 2019.

A pesada massa arquitetônica do templo benedito abarca um interior de leveza e espiritualidade. É a quarta construção no mesmo local onde Tibiriçá auxiliou a fundação da pequena vila no Planalto do Piratininga. Lá se foram os altares barrocos substituídos por severo desenho neorromânico (1913) ornamentado por requintadas pinturas da escola de Beuron. Arquitetos alemães e pintores belgas erigiram o monumento no qual ecoam os cantos gregorianos e os monges, em reverência milenar, posicionam-se nos cadeirais para as rezas matinais e vespertinas. Templo de oração no âmago basilical, e de formação, no colégio e ensino superior, dos mistérios das interpretações teológicas.

Catedral da Sé. Acrílica s/tela, 1,50 x 1 m, 2019.

O imponente monumento da religiosidade paulistana levou quase um século para ser finalizado. Projetada pelo engenheiro e arquiteto alemão Maximilian Emil Hehl, a pedido de Dom Duarte Leopoldo, teve sua continuidade com vários arquitetos da Politécnica. Seus construtores espanhóis lavraram as pedras retiradas nos canteiros pelos portugueses. Os vitrais são franceses, as esculturas na maioria de artistas italianos, assim como os altares e mosaicos venezianos. Os móveis, do Liceu de Artes e Ofícios. Na grande praça iniciaram-se os movimentos pelas Diretas-Já e no seu interior majestoso foram realizadas solenidades ecumênicas. Para a existência deste monumento múltiplas etnias mesclaram-se em uma sinfonia de grises das pedras, verdejantes tonalidades de cobres enobrecidos pelo tempo, cores místicas dos vitrais que escorregam pelas pedras frias acinzentadas das colunas. Na Praça da Sé a obra Diálogo, de Franz Weissmann corrobora esta vocação aglutinadora da metrópole que acolhe todos os credos.

Correios - Homenagem a Ramos de Azevedo. Acrílica s/tela, 1,50 x 1 m, 2019.

O Escritório Ramos de Azevedo foi responsável pela transformação da vila imperial, modelada ainda com a taipa de barro, para a cidade eclética de tijolos. Figura aglutinadora de técnicos, mestres de obras, desenhistas e engenheiro, o criador do Liceu de Artes e Ofícios dominou a modelação da nova cidade do ecletismo ao modernismo dos anos 30. A tacanha vila passou a ter ares civilizatórios com o poder financeiro dos cafeicultores enriquecidos que desejavam uma cidade ilustrada com os edifícios característicos e funcionais, como o Theatro Municipal, o Palácio das Indústrias, a escola Caetano de Campos e o Palácio da Justiça, além do Mercado Municipal desenhado por Felisberto Ranzini. O Monumento a Ramos de Azevedo (1934), de Galileo Emendabili, é encimado pela alegoria do Progresso a dominar um imenso Pégaso, símbolo do esforço sobre humano deste homem incomum fundador da indústria da construção monumental daquela que viria a ser a grande metrópole da América do Sul.

Café. Homenagem a Manabu Mabe. Acrílica s/tela, 1,50 x 1 m, 2019.

Da obra abstrata de Manabu Mabe surge a representação da agricultura ou a Musa do Café, bronze de Galileo Emendabili, a homenagear o cientista e médico Luiz Pereira Barreto, responsável pela introdução de novas técnicas do café Bourbon no oeste paulista. Manabu Mabe, japonês, imigrou em 1934, quatro anos depois de inaugurado o monumento a Pereira Barreto, para trabalhar na lavoura do café no interior paulista, cidade de Lins. A grandiosa composição em tons quentes e frios faz emergir, entre cinzas golpeados como cinzeladas a modelar o bronze, a figura eclética da alegoria da Lavoura com uvas nas mãos e ramos de café no penteado, tendo o livro a sustentar seu braço – cientista que era o homenageado. O tema café une estranhamente estas duas manifestações artísticas por meios alegóricos e culturais – a dureza do bronze a materializar a doçura alegórica feminina com a fluidez das tintas escorridas da gestualidade lírica e matérica do agricultor de café que se tornou artista internacional.

Bandeiras. Homenagem a Brecheret. Acrílica s/tela, 1 x 1,50, 2019.

O monumento símbolo do orgulho paulista, Bandeiras (1954) de Victor Brecheret, rivaliza em importância de memória histórica com o monumento do Ipiranga de Ettore Ximenes (1922). Independente da batalha artística entre italianos ecléticos e modernistas ávidos de mudanças do rumo da arte brasileira a libertar-se do academicismo, Bandeiras homenageia os sertanistas e Ximenes, em linguagem ufana, enaltece o nascimento da nação independente. Os gigantescos blocos de granito modelam a marcha da bandeirantes rumo à interiorização do país a romperem com a linha de Tordesilhas. No lítico monumento, Manuel Alves Preto, imponente sobre o cavalo, observa a massa humana em marcha a ultrapassar os saltos do Tietê com imensa barca. Na pintura, o sertanista que introduziu a etnia guaranis na capital, está cercado pelos índios, que em direções opostas emolduram o enigmático animal.

Brado do Ypiranga. Homenagem a Ettore Ximenes. Acrílica s/tela, 1 x 1,50, 2019.

O Monumento do Ipiranga (1922-1926) está disseminado nos livros didáticos de História do Brasil. A grandiosa pintura Independência ou Morte, do paraibano Pedro Américo, pintado em Florença (1888) é a inspiração para o italiano Ettore Ximenes modelar o frontão do monumento comemorativo ao ato de independência de dom Pedro I em 1822. O jovem, com um ramo de café na mão, no frontão de Ximenes, observa com gesto de espanto o tropel dos cavalos e as figuras enigmáticas dos dragões. O cavalo de um oficial – a la Guernica de Picasso – relincha enquanto o brado do futuro imperador – entre os animais - ecoa anunciando uma pátria livre. Um azul plácido contorna a biga com a Vitória ladeada por índios acima dos degraus do altar da pátria. Com este grandioso monumento e o edifício do atual Museu Paulista com seus jardins franceses, São Paulo assegurava seu lugar no rol das cidades civilizadas no mundo.

Barroco Joanino. Acrílica s/tela, 0,90 x 0,70 m, 2019.

O entrelaçamento das formas internas de cultura barroca e a exteriorização de recursos formais do estilo são uma constante na obra de Percival Tirapeli expressos nesta série Perspectivas Barrocas. É esta conexão entre emoção e formalizações oníricas que torna visível sua resposta simbólica aos mistérios da vida. Como se esta união não bastasse, seu refinamento compositivo complementa tal diálogo com as chaves mestras da geometria euclidiana. É o que lhe permite transitar livremente entre valores do hedonismo renascentista e um transcendentalismo paradoxal, próprios do estilo em questão. Que gama de concepção comprometida com a quintessência barroca! Situa-se quase em dimensão metafisica, sublinhando enlace perfeito de matéria e espirito. Sua produção sempre alinhou voos às imagens sólidas de anjos, colunas e cúpulas pintados em matizes terrosos e sensórios. (Maria Elisa Linardi, 2019)

Rococo bávaro. Acrílica s/tela, 0,90 x 0,70 m, 2019.

Percival cria ilimitados espaços pictóricos e neles restabelece imagens barrocas que resgatam o paraíso anunciado e recuperado da Igreja Triunfante. Fica claro, nesta concepção, a relação espiritual existente entre abóbodas convexas e sua dispersão no infinito, cujo fim maior é o sobrepor-se à matéria. Coisas do Barroco, estilo que
utiliza meios concretos para expressar uma dimensão oculta. Em uma visualidade arrebatadora, estas formas entremeadas no espaço ratificam o percurso realizado: suspendem a passagem do tempo, conectando-se em frestas da imaginação, portas entreabertas do ser e do oficio. (Maria Elisa Linardi, 2019)