SÃO PAULO – ARTES E ETNIAS

Percival Tirapeli. Editoras Imprensa Oficial do Estado de São Paulo e Editora UNESP.

 

São Paulo – Artes e Etnias (2007, Editora Unesp/Imprensa Oficial do Estado de São Paulo), de Percival Tirapeli, registra a saga dos fundadores da capital paulista desde o período colonial – com os povos indígenas, portugueses e africanos nos três primeiros séculos desde o descobrimento do Brasil; seguem-se os ideais da Independência e dos primeiros imigrantes, já durante o Império no século XIX, oriundos das línguas germânicas. Na segunda metade daquele século acompanha-se a trajetória dos italianos, portugueses e espanhóis – além dos que chegaram do oriente médio e do leste europeu, já no período republicano.  O livro mostra ainda a influência das diferentes e múltiplas etnias que deixaram registradas suas marcas civilizatórias nas diversas expressões artísticas da pintura, escultura e arquitetura.

A cidade ganhou impulso sob o surto construtivo de Ramos de Azevedo que, junto à Escola Politécnica e Liceu de Artes e Ofícios, abrigaram cientistas e artistas principalmente de origem italiana. O legado se vê por toda cidade, mas praças e construções como no Teatro Municipal, Museu do Ipiranga que já estava construído desde 1885 mas que foi acrescido em 1922, o monumento aos cem anos da Independência do Brasil, do italiano Ettore Ximenes. Ainda no final do século XIX cidade era construída pelos ingleses com a Estação da Luz, pelos franceses no Vale do Anhangabaú e alemães com o Mosteiro de São Bento.

Tirapeli traça um panorama da História da Arte Brasileira com o recorte da arte modernista paulista e o impulso que a cidade ganhou com todos os artistas que imigraram para o trabalho agrícola nos cafezais – caso dos italianos e japoneses – ou ainda aqueles que já se estabeleceram na capital modernista semi-industrializada, como os artistas do Leste Europeu que imigraram já no período entre guerras no século XX. Neste mesmo período a cidade passou por transformações urbanísticas e sentiu a colaboração dos arquitetos advindos da Rússia como Gregory Warchavichik, da Polônia Lucjan Korngold e do tcheco Adolf Franz Heep. As artes plásticas ganharam artista abstratos como a húngara Yolanda Mohályi, o romeno Sanson Flexor, o fotógrafo Thomaz Farkas. Do Oriente vieram artistas sensíveis como Manabu Mabe e outros que fundaram grupos artísticos como Guanabara e Jacaré.

A cidade construída pelos migrantes nordestinos também acolheu os arquitetos brasileiros e seu crescimento passou do Triângulo Histórico para o Centro Novo e depois para a Avenida Paulista. O progresso desenfreado gerou uma megalópole que se expande pelas baixadas do Rio Pinheiros constituindo um centro com edifícios inteligentes com uma roupagem de metrópole tecnológica e refeita de seus primeiros anos do século da modernidade e industrialização. Estes assuntos compõem a terceira parte do livro dedicado às artes como a construção dos  ismos do século XX, da passagem da metrópole para uma megalópole que acolhe não apenas a cultura mas também as ciências.

O livro sem dúvida de referências tem mais de 150 fotos em preto e branco do acervo das Obras Raras da Biblioteca Mário de Andrade e constitui dentro da publicação um outro livro – um núcleo de memória diferenciado graficamente - muito bem diagramado com textos-legendas do historiador Waldir Salvadore que se mostra um especialista na leitura iconográfica das ruas e construções. As trezentas fotos coloridas de Manoel Nunes são de grande sensibilidade e impulsionam o leitor a conferir a grandeza captada por suas lentes que diferenciam ainda os edifícios alemães franceses, italianos, portugueses além dos monumentos que embelezam as praças e parques da cidade desapercebida.

Livro de fôlego, elaborado em projeto editorial esmerado de Gerson Tung com 450 páginas, São Paulo – Artes e Etnias mostra a epopeia artística de diferentes povos, na construção desta megalópole. As imagens se referem pela numeração, o que possibilita a identificação e os paralelos que o autor tece nesta imensa trama de informações, fotografias, desenhos, pinturas, arquitetura e escultura. Com a publicação de São Paulo – Artes e Etnias, a Imprensa Oficial do Estado de São Paulo e Editora Unesp certamente estão contribuindo para o resgate da  história paulistana, em livro de grande envergadura e qualidade da envergadura de São Paulo e todas a etnias que construíram sua arte.

Laura Carneiro, jornalista.

Dos Editores

Com a publicação de São Paulo – Artes e Etnias as editoras da Universidade Estadual Paulista e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo cumprem mais uma vez o papel de construtores da história paulista. Embasados nos princípios da pesquisa e divulgação dos saberes universais, unimos esforços na feitura desta obra de envergadura em homenagem às etnias que construíram nossa metrópole. À saga dos fundadores do período colonial – indígenas, portugueses e africanos – seguem-se os ideais da Independência e dos primeiros imigrantes já durante o Império, oriundos das línguas germânicas, seguidos pelos italianos, portugueses e espanhóis – até aqueles advindos do médio e extremo oriente e do leste-europeu, já no período republicano.

Esta publicação é, portanto, uma homenagem à construção desta Babel às avessas, em que todos os povos e etnias que para aqui acorreram passaram a se entender, derrotando assim o mito da incompreensão e do convívio de seres humanos de etnias tão diversificadas. Participar dessa epopéia de construção do Estado cuja capital se tornou a maior metrópole do hemisfério sul é motivo de orgulho para nós. São Paulo tem vivido o papel de condutora de uma nação livre e democrática oriunda nas construções da fé das mais diversas religiões, do ensinamento e saber, da nação continente e da modernidade. Seus méritos são fruto do acolhimento de tantas raças, pobres ou ricos que aqui chegaram como lavradores ou artistas, mascates ou cientistas - que deixaram suas pátrias em momentos difíceis para aqui encontrarem campo fértil para novas vidas e ideias. Assim se fez e se faz a construção de São Paulo.

Hubert Alquéres, Diretor presidente da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo e

José Castilho, Presidente da Fundação Editora da UNESP

 

 

 

Palavra do Autor

Aceitar o desafio de homenagear os povos construtores da cidade de São Paulo tem o mesmo significado do ímpeto de fazer a América que levou meus avós ao deixarem Verona, Padova e Oderzo, na Itália do final do século XIX. Se agora posso prazerosamente contribuir com a obra São Paulo – Artes e Etnias para esta cidade que tanto cresceu com o cultivo do café, em parte é porque também eu o colhi em minha infância.

Aliando o conhecimento e a pesquisa à vivência e a sabores do passado, durante dois anos de trabalho - tais como os ciclos do café -  as imagens foram divididas a meia com o infatigável fotógrafo potiguar Manuel Nunes da Silva. As sementes de primeira qualidade foram as obras raras da Biblioteca Mário de Andrade, gentilmente desvendadas por Rizio Bruno Sant´Ana, plantadas em campo fértil, terra roxa sonhada.

Sem o perigo da geada, espantada pelo entusiasmo, veio a florada na grande quantidade de imagens encontradas na obra Vues de São Paulo, nos Álbuns Comparativos e no Arquivo do Departamento de Patrimônio Histórico, o DPH, da Prefeitura de São Paulo. Os frutos rubros são os textos de pesquisas para as quais contribuíram amigos acadêmicos e discípulos.

A labuta às vezes começava já na madrugada à espera do primeiro turno do sol, com Nunes a postos para encontrar o melhor perfil da cidade no alvorecer. Juntos, com o suor do meio dia, íamos em frente mesmo quando a luz incidente sobre o monumento encontrado já não mais revelava sua melhor forma. Cálculo nos arruamentos, das eiras dos edifícios que projetando sombras uns sobre os outros impediam o aparecimento de novas luminosidades para novos ângulos.

À sombra pude refrescar as ideias e ordenar as mais de 5 mil imagens pesquisadas e textos oriundos de livros sobre aspectos da imigração no Estado de São Paulo. O  geógrafo Aziz Ab´Saber, generoso amigo filho de imigrante libanês, mostrou-me a criação da  natureza sobre esse mar de morros geográfico onde está implantada a metrópole. Waldir Salvadore, ítalo-hispano-luso paulistano, vibrou comigo a cada novo álbum fotográfico da BMA com as vistas das cidades Colonial e Imperial e, na pesquisa de campo, identificou as mais significativas construções neste imenso arruamento de edifícios.

Refeito, aguardei pela colheita que estava próxima. Os livros básicos para a datação, identificação e medidas dos monumentos foram Esculturas no Espaço Público em São Paulo de Miriam Escobar, Arquitetura Moderna Paulistana de Carlos Lemos para os edifícios modernos. Pesquisas dos Cadernos Cidade de São Paulo do Itaú Cultural constituem a base das legendas das praças. Foram muito bem peneirados. O último mutirão para catar os frutos: a produção digital das fotografias feita pelo sino-paulistano Gerson Tung, a bibliografia de obras raras sobre a cidade de São Paulo feita por Rizio Bruno Sant´Ana e Rita de Cássia D´Angelo. A colheita tomou corpo e se ampliou com mais de 3 mil fotografias produzidas por Nunes a partir de minhas solicitações, além das 5 mil das quais selecionei 150 a partir dos arquivos da biblioteca e do DPH.

A imensidão de obras raras com relatos desde a fundação da cidade parecia disposta em enormes terreiros. Removidos os livros, tais grãos de café postos a secar, de quando revoltos afloravam novos tesouros e eu então pude desfrutar da melhor seleção.

Agora é degustar em todas as línguas… saboreando cada palavra, cada imagem.

Percival Tirapeli