SOLO PÁTRIO - BAHIA BRASIL
 

A expo nomeada Solo Pátrio Bahia Brasil, traz vinte e duas telas em diferentes formatos, acrílica sobre tela, fruto de dois anos de trabalho. Organiza-se em três núcleos: Solo Pátrio – Homenagem à Bahia, Solo Pátrio Brasil , e Diagonais - Homenagem a Modrian.

Nos dois primeiros módulos o artista baseia-se nas bandeiras brasileira e baiana e suas formas geométricas, desenhadas por Jean-Baptista Debret sob o olhar de José Bonifácio de Andrada e Silva, ainda no início do Império, e as bandeiras imperial e republicana da Bahia. São listras que se cruzam, se interpretam, criando um espaço subjetivo.

A bandeira baiana ganha um novo desenho heráldico quando o triângulo branco é envolvido por azuis e vermelhos. Nas Diagonais - Homenagem a Mondrian, seis pinturas estão dispostas de forma diagonal, com composições em diamante, como foi concebida pelo artista holandês. Neste momento Tirapeli usa aguadas escorridas, criando tramas no suporte, com manchas, diferenciando-se de Piet Mondrian com sua iconografia neoplasticista.

Há em todos os trabalhos um jogo de massas corantes, buscando a inteireza da cor e suas consequências. Matizes tornam-se inquietas, valorizados por sobreposições, veladuras sutis que suavizam tons e enriquecem campos com pinceladas soltas em ágil gestualidade. Os campos geometrizados reverenciam minúcias, relações formais entre tons, linhas e acontecimentos que são conduzidos ao acerto final.

A cor é tratada por Tirapeli com surpreendente sutileza. Revela pequenas escavações, enrugamentos, vincos, riscos, em gestos enriquecedores da textura. Um jogo de acréscimos e supressões, cumprindo uma sinfonia tonal que vale pelas possibilidades inventivas e inusitadas. As veladuras escondem e ao mesmo tempo revelam cores que alcançam múltiplos valores, ultrapassando a palheta comum. As luzes surgem e surpreendem, fechando e abrindo espaços em movimentos por vezes imperceptíveis e outros vibrantes, cumprindo seu papel como essência da pintura. Até que o artista dê por concluída sua missão. Saber o momento de parar, evitar excessos é problema que todo criador enfrenta e Percival Tirapeli o faz com firmeza e convicção. Não interessa a imitação do mundo concreto, sim a inteireza dos jogos de formas e massas corantes, que domina com maestria. Solo Pátrio Bahia Brasil, foi concebida com rigoroso cuidado artesanal, grande inventiva e paixão pela cor.

César Romero, curador.
ABCA – AICA, dezembro de 2012

A exposição Solo Pátrio Bahia Brasil do artista plástico paulista Percival Tirapeli traz vinte pinturas em diferentes formatos em acrílico sobre telas, trabalho a que o artista vem se dedicando nos dois últimos anos. Em 2010, Tirapeli foi convidado a participar como representante do Brasil em um workshop em Medana, Eslovênia, por indicação da Associação Internacional de Críticos de Arte. A obra resultante foi incorporada ao acervo do Medana Museum of Contemporary Arte, e já continha embrionariamente uma visualidade relativa àquela nação e sua bandeira. A partir de então, o artista incorporou temáticas ligadas a símbolos nacionais na exposição Territórios da Cor (Galeria Belvedere, Paraty, e Casa Ranzini, São Paulo, 2010, com nova edição em 2011, São Paulo, Casa Ranzini e Club Athletico Paulistano).

A presente mostra na ACBEU configura-se como oportunidade de homenagear a Bahia, e organiza-se em três núcleos.  – Solo Pátrio - homenagem à Bahia, Solo Pátrio Brasil e Diagonais – homenagem a Mondrian. Nos dois primeiros, os referenciais do artista são as bandeiras brasileira e baiana com suas formas geométricas desenhadas por Jean-Baptiste Debret sob o olhar de José Bonifácio de Andrada e Silva, ainda no início do Império, logo após a proclamação da Independência, e as bandeiras imperial e republicana da Bahia. Na República, a continuidade das formas rígidas das leis da heráldica fora conservada, suprimindo-se as formas orgânicas dos ramos de café e de tabaco, e aquelas ornamentais do reino de Portugal (na brasileira), pelo círculo e o dístico positivista. Ao mesmo tempo, a bandeira republicana baiana ganhou novo desenho heráldico com as cores azul envolvendo o triângulo branco e as listras vermelhas.

Em pleno século XXI, Tirapeli decide apropriar-se das linhas geométricas e das cores para expandir o sentido do símbolo - pleno de possibilidades pictóricas.

Professor titular em história da arte na UNESP, ele nos faz lembrar que outro artista, Jasper Johns, interpretou a rigidez da bandeira norte americana até a exaustão. Listras vermelhas e brancas dominavam as composições com estrelas naqueles tempos da pop art. No Pará, Nassar fez instalações com bandeiras dos municípios paraenses e durante  anos vimos nos discursos oficiais a bela pintura da bandeira brasileira de Décio Villares. A apropriação que o artista agora faz é no sentido colorístico, do trepidar das formas e do estranhamento do uso simbólico.

Se em exposições anteriores, como Territórios da Cor, suas obras prenunciavam a paixão pela mistura ao acaso das cores, em Solo Pátrio Bahia Brasil as linhas seguram a firmeza do valor simbólico proposto pelas regras da heráldica. As linhas retas do fundo compositivo permitem às pinceladas largas com manchas transparentes multiplicarem-se ad infinitum na superfície do campo pictórico. Como Wassily Kandinsky que preconizou a liberdade das pinceladas, ainda no início do século modernista, e inventou a pintura pela pintura abstrata emocional logo racionalizada por Piet Mondrian, a abstração tomou novos rumos e firmou-se na História da Arte -- até Jackson Pollock abolir as pinceladas e mesmo o eixo das composições.

A homenagem à bandeira republicana baiana é dominada pelas cores azul, vermelha e os brancos sobrepostos tendo como ponto visual o triângulo branco encerrado em um azul ultramar. Esta forma triangular branca se repete dentro do próprio campo visual em gradientes, e as linhas se unem com fortes traços aplicados diretamente com o tubo de tinta sobre as aguadas transparentes. As listras ora vermelhas, ora brancas, por vezes se misturam às cores da antiga bandeira imperial brasileira - com verdes e amarelos - e a formas arredondadas, criando uma sintonia de cores com a bandeira brasileira republicana.
Nestes sentidos de liberdade, as obras de Solo Pátrio Bahia Brasil se articulam de tal maneira que poderiam formar uma grande sinfonia colorística, sustentada por linhas tal como pentagramas matemáticos suportando a leveza da cor e a transparência da técnica aguada com acrílica, à maneira de um primo pensiero esboçado com aquarela.

Já nas Diagonais, as homenagens a Mondrian, o artista prefere a composição em diamante – o quadrado posto de forma diagonal –  desenvolvido pelo artista neoplasticista. Ao invés das linhas perpendiculares do holandês, Tirapeli prefere as aguadas escorridas que formam uma trama no campo visual.  Constrói primeiramente uma trama com linhas – usa a parafina, que recusa tinta acrílica – que revelam o fundo e trama da tela. Com pinceladas amplas, transparentes e linhas curvas, cria uma pintura com manchas, opostas àquelas propostas por Piet Mondrian. Assim cria um estranhamento entre a rigidez visual que a tela em diagonal nos transmite, ao mesmo tempo que as linhas curvas e manchas tornam-se opostas à gramática neoplasticista – linhas perpendiculares e cores primárias, separadas por retas em preto.

Tirapeli parte da rigidez das formas homenageadas – bandeiras e composições diagonais de Mondrian – e busca formas livres e soltas de composição. As pinceladas sobrepostas criam profundidades e transparências, e caminham em direção oposta às das cores planas das bandeiras brasileira e baiana. No conjunto da exposição, sob curadoria do artista plástico e crítico de arte Cesar Romero, diamantes e abstrações se integram em uma expografia cuidada, que valoriza e colore a bela Galeria ACBEU.

Laura Carneiro, Jornalista, MTb19.050.